Posts taggeados com ‘Trágico’

Fragmentos filosóficos #13 – Rosset e o princípio de crueldade

Este é o décimo terceiro de nossos Fragmentos filosóficos, uma série composta por trechos selecionados e comentados (sob a curadoria de Marcos Beccari e Daniel B. Portugal), com a proposta de apresentar filósofos em suas próprias palavras. O trecho abaixo foi retirado do livro O princípio de crueldade de Clément Rosset (Rio de Janeiro: Rocco, 2002, p. 22). Seleção e comentários de Marcos Beccari.

O homem é o ser capaz de saber o que, por outro lado, é incapaz de saber, de poder em princípio o que é incapaz de poder em realidade, de encontrar-se confrontado ao que é justamente incapaz de afrontar. Leia mais…»

Sem título ou da urgência por nada

* desenhos em nanquim de Samantha Wall ilustram o post.

Pessoas criam pensamentos absurdos em nome dos quais, um dia ou outro, passam a rezar e a prestar contas. Outras se opõem ao pensamento em si, como um espelho que só sabe refletir o contrário. O mais comum, no entanto, é querer apenas chegar até o fim do dia. Nada pensar e existir somente. Não se trata de irracionalidade; é que o mais urgente é alheio à razão, não se afeta pelo pensamento, sendo também indiferente ao que sentimos.

De fato gostamos do “teatro”, como se a chuva tivesse que cair porque não poderia ser diferente. Sentimos orgulho ou culpa porque viver é urgente: crianças fingindo ser adultos e vice-versa, sabendo que cada instante é um a menos e que todas as escolhas levam a um mesmo fim. Não há quem não se importe com nada. E mesmo no caso dos papéis “desinteressados”, do tipo kantiano, estoico ou zen-budista, o pensamento permanece ali, como que nos espionando, num entediante jogo de quem é que ri primeiro. Leia mais…»

Fragmentos filosóficos #3 – Rosset e o nada

Este é o terceiro de nossos Fragmentos filosóficos, uma série composta por trechos selecionados e comentados, sob a curadoria de Marcos Beccari e Daniel B. Portugal. Em tempos de citações desgastadas na alternância de contextos, nosso propósito não se reduz à repetição de palavras, e sim a apresentar autores em suas próprias palavras. O trecho abaixo foi retirado do livro Lógica do Pior, de Clément Rosset (Rio de Janeiro: Espaço e Tempo, 1989, p. 103, grifos no original). Seleção e comentários de Marcos Beccari.

Nomear é definir; definir é determinar uma natureza; ora, nenhuma natureza é. Nem o homem, nem a planta, nem a pedra, nem o branco, nem o odor são. Mas o que resta, além disso, para ornar o ser, uma vez excluídos da existência todos os seres designados pelas palavras? Existe “alguma coisa”, mas essa alguma coisa não é nada, sem nenhuma exceção, do que figura em todos os dicionários presentes, passados e por vir. “O que existe” é, pois, muito precisamente, nada. Nada, isto é: nenhum dos seres concebidos e concebíveis; nenhum dos seres recenseados até esse dia figura no registro do que o pensamento do acaso admite a título de existência. É forçoso, pois, excluir da existência a própria noção de ser. Exclusão que não releva de uma interdição de princípio, mas de uma constatação empírica: o que é excluído da existência não é, propriamente falando, a noção de ser, mas antes a coleção completa (e necessariamente provisória) de todos os seres pensados até o presente. Leia mais…

Não Obstante #4 – Machado de Assis, filósofo brasileiro

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Não Obstante #2 – Do imaginário ao trágico

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À sombra das senhas quase silenciosas

* texto originalmente publicado na Revista Clichê.

Alguns escritores, em seu estilo e postura, provocam intencionalmente desafio e olhar crítico de seus leitores. Outros apenas nos convidam a pensar. As demandas hiper-prosaicas de Baudrillard pedem somente um resmungar de olhos arregalados ou um assentimento desnorteado. Ele anseia influência intelectual, mas afasta qualquer análise séria de sua própria escrita, mantendo-se livre para saltar de uma asserção bombástica para outra, não importa o quão contraditório isso possa parecer. Seu truque é simplesmente o de fazer com que comprem seus livros, adotem seu jargão e mencionem o seu nome sempre que possível. – Denis Dutton, Baudrillard Review (Philosophy and Literature n. 14, 1990, trad. minha).

A crítica supramencionada assemelha-se a dezenas de outras críticas dirigidas contra a obra de Deleuze, de Cioran, de Žižek e até de Nietzsche, de modo que a denúncia básica de “adotarem seu jargão sempre que possível” parece referir-se mais aos críticos do que aos autores criticados. Neste caso, a dificuldade falsamente imposta pelo discurso de Baudrillard provém da contradição e da ironia permanentes em suas provocações que, no conjunto de cada texto, instauram uma contundência e uma reversibilidade tais que não isentam nem aqueles que, como o comentarista acima, rendem-se ao olhar “pós-moderno” por eles próprios denunciado. Leia mais…»

Alegria e design para além da felicidade

* texto originalmente publicado na edição 43 da revista abcDesign.

Qual é o segredo da felicidade? “Um pouco de perseverança, amizade e autoestima” seria uma resposta tão previsível quanto desgastada, repetida não somente nos programas vespertinos da TV, mas também em obras de autores de renome. Entretanto, se essa pergunta permanece sendo tão importante para as pessoas, resta-nos, enquanto designers, questionar o que afinal significa felicidade atualmente e de que maneira o design lida (ou poderia lidar) com tal concepção.

Em primeiro lugar, o fato de que todo mundo evita sofrer sempre que possível não significa que a busca por felicidade seja inerente à natureza humana. A não ser que felicidade seja, para algumas pessoas, sinônimo de sofrimento – como para fulano que aceita um cargo insuportável em troca de um salário mais alto, ou para beltrana que prefere continuar sendo mal tratada ao invés de acabar o namoro ou o casamento. Também não significa, por outro lado, que a busca por felicidade seja um erro ou uma bobeira – boa parte de nossa cultura e sociedade tem girado em torno dessa “bobeira”. Leia mais…»

Filosofia do Design, parte XXXV – entre o bom e o mau Design

* texto originalmente publicado no Design Simples.

Um dos problemas que mais me incomodam no campo do Design – em sala de aula, bancas de avaliação, agências, escritórios, etc. – é o julgamento do que é certo e do que é errado. Trata-se de uma atitude natural quando se pretende projetar, no sentido aristotélico e peirceano, um bem para a sociedade. No entanto, quando deixamos de encarar o Design como mero projeto e passamos a aceitá-lo como um fenômeno muito mais amplo, enraizado na natureza simbólica e na herança coletiva da humanidade, é inevitável uma forte tendência para o relativismo.

Embora haja, para Kant, um juízo universal somente acessível através da razão, eu persisto em desconfiar de qualquer categoria absoluta como certo/errado, bom/mau, verdadeiro/falso. Assim como não há um único ponto de vista inequívoco que a física possa adotar para compreender o mundo físico, a formulação de regras/métodos/receitas não só é difícil, mas na verdade impossível: há sempre um ponto de referência subjetivo, o que implica que o certo e o errado são relativos ao sujeito. Entretanto, segundo Sartre, o ser humano é uma criatura moral e nada pode lhe poupar do tormento das decisões e julgamentos, isto é, de sua liberdade. Logo, quando aceitamos tal fragilidade e responsabilidade por detrás de nossa autonomia, qualquer decisão se torna um ato subjetivo e criativo. Leia mais…»

O Designer Idiota – Pt.2 (ou “o babaca”)

Dado o rebuliço que minha última crônica causou, aproveitarei o espaço para desenvolver alguns pontos que foram levantados pelos comentários.

Para os que decidem continuar, brindo com uma citação.

“Eu sou um filho do século, filho da descrença e da dúvida; assim tenho sido acusado até hoje e o serei até o fim dos meus dias. Que tormentos terríveis tem me custado essa sede de crer, que é tão mais forte em minha alma quanto maiores são os argumentos contrários”.

Dostoiévski

Por mais atual que essa frase possa parecer, especialmente levando em conta as posições que declarei na postagem anterior, ela tem mais de 150 anos. Foi escrita por Dostoiévski, em uma carta enviada à sua amiga N. D. Fonvízina, em fevereiro de 1854. Este post é dedicado às suas ideias.

(O que Dostoiévski tem a ver com design? Nada. Se isso te incomoda, se você é preguiçoso ou acredita que literatura/filosofia são coisas inúteis para o designer, pode fechar a janela. Seu lugar não é aqui) Leia mais…»