Posts taggeados com ‘valores’

Uma ética sem valores ou um solipsismo às avessas

Ilustram o post fotografias de Soul Leiter.

[...] No mundo tudo é como é e tudo acontece como acontece; não há nele nenhum valor [...] – Wittgenstein, Tratactus logico-philosophicus, § 6.41 [todos os trechos que constam no post foram retirados da 3ª edição da Edusp, 2008].

O Tratactus foi a primeira obra publicada por Wittgenstein e representa a primeira fase de seu pensamento, ao passo que o segundo Wittgenstein está mais representado em seus escritos a partir da década de 1930. Comentei brevemente sobre o Tratactus no fragmento filosófico #15; agora pretendo comentar sobre aquilo que me parece ser uma ponte parcial para o segundo Wittgenstein: a proposição de uma ética sem valores que encerra o Tratactus. Leia mais…»

Fragmentos filosóficos #15 – Wittgenstein e os limites do pensar

Este é o décimo quinto de nossos Fragmentos filosóficos, uma série composta por trechos selecionados e comentados (sob a curadoria de Marcos Beccari e Daniel B. Portugal), com a proposta de apresentar filósofos em suas próprias palavras. O trecho abaixo foi retirado do livro Tractatus logico-philosophicus (3. ed. Trad. Luiz Henrique Lopes dos Santos. São Paulo: Edusp, 2008, p. 131), no prefácio escrito por Wittgenstein. Seleção e comentários de Marcos Beccari.

O livro pretende, pois, traçar um limite para o pensar, ou melhor – não para o pensar, mas para a expressão dos pensamentos: a fim de traçar um limite  para o pensar, deveríamos poder pensar os dois lados desse limite (deveríamos, portanto, poder pensar o que não pode ser pensado). O limite só poderá, pois, ser traçado na linguagem, e o que estiver além do limite será simplesmente um contrassenso. Leia mais…»

Duas tradições de vilipendiação do consumo

consumo-pirulito* Ilustram o post imagens de Grégoire Guillemin

Uma das coisas notáveis no campo de estudos sobre cultura material é a quantidade de textos que atacam moralmente o consumo das formas mais diversas e, curiosamente, até mesmo contraditórias. Acredito que são duas as principais raízes morais de tais críticas: a tradição platônico-cristã e a tradição marxista. Vou tecer algumas considerações sobre elas neste post, aproveitando parte de um artigo ainda não publicado.

A tradição platônico-cristã critica o consumo por sua íntima conexão com o mundo material – ele atuaria como uma espécie de sereia que, com a promessa de prazeres, atrai a alma para as profundezas da matéria, corrompendo-a e desviando-a do seu verdadeiro Bem metafísico. O consumo, nessa perspectiva, é vicioso. A tradição marxista, quase que inversamente, critica o consumo por sua íntima conexão com o mundo da fantasia – ele atuaria de maneira análoga ao assassino descrito por Umberto Eco em Baudolino, que, mantendo seus escravos drogados com mel verde, faz estes viverem falsamente felizes no mundo da alucinação, enquanto esgotam suas vidas no trabalho pesado. O consumo, nessa perspectiva, é alienante. Leia mais…»

Elsa vai para as montanhas: considerações éticas com base em Frozen, Freud e Nietzsche

frozen-5Neste post, vou analisar o filme Frozen, da Disney, com o intuito de  refletir sobre algumas orientações morais derivadas, direta ou indiretamente, das propostas éticas de Nietzsche e Freud. Como a maioria deve saber, Frozen conta a história de Elsa, uma princesa que nasceu com poderes mágicos ligados ao gelo, e Anna, sua irmã. Quando crianças, as duas eram muito próximas e passavam o dia brincando no amplo espaço do castelo em que nasceram (Arendelle). Os poderes de Elsa tornavam as brincadeiras mais interessantes, permitindo, por exemplo, que as irmãs construíssem um boneco de neve no meio de um salão de festas vazio. Não sabendo controlar seus poderes, porém, Elsa acaba machucando sua irmã em uma dessas brincadeiras. Depois desse episódio, os poderes de Elsa passam a ser vistos como perigosos, e seus pais se empenham em reprimi-los. A parte inicial da principal música do filme, Let it go, descreve bem o que os pais (e, com base neles, a própria Elsa) acreditam que precisa ser feito com os poderes: “esconda, não sinta, não deixe ninguém saber, seja a boa garota que você sempre foi”. Leia mais…»

Dilemas do Design VI – valor e avaliação

* texto originalmente publicado na Revista Clichê.

“O segredo da maestria é que não há mestre.” – Georges Gusdorf, Professores para quê? (São Paulo, Martins Fontes, p. 318).

Imagine que você é um professor de design editorial e nenhum de seus alunos sabe o que significa “kerning”. Exceto um, que inclusive trabalha nessa área já faz uns dez anos. A princípio, você teria duas opções: (1) começar do básico e fingir que aquele aluno não existe, nota 10 pra ele e pronto; (2) avaliar cada aluno de acordo com seu próprio “esforço”, isto é, do quanto cada aluno progride dentro de seu “nível” individual. Leia mais…»