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Duas tradições de vilipendiação do consumo

consumo-pirulito* Ilustram o post imagens de Grégoire Guillemin

Uma das coisas notáveis no campo de estudos sobre cultura material é a quantidade de textos que atacam moralmente o consumo das formas mais diversas e, curiosamente, até mesmo contraditórias. Acredito que são duas as principais raízes morais de tais críticas: a tradição platônico-cristã e a tradição marxista. Vou tecer algumas considerações sobre elas neste post, aproveitando parte de um artigo ainda não publicado.

A tradição platônico-cristã critica o consumo por sua íntima conexão com o mundo material – ele atuaria como uma espécie de sereia que, com a promessa de prazeres, atrai a alma para as profundezas da matéria, corrompendo-a e desviando-a do seu verdadeiro Bem metafísico. O consumo, nessa perspectiva, é vicioso. A tradição marxista, quase que inversamente, critica o consumo por sua íntima conexão com o mundo da fantasia – ele atuaria de maneira análoga ao assassino descrito por Umberto Eco em Baudolino, que, mantendo seus escravos drogados com mel verde, faz estes viverem falsamente felizes no mundo da alucinação, enquanto esgotam suas vidas no trabalho pesado. O consumo, nessa perspectiva, é alienante. Leia mais…»

Suor sem lágrimas: trabalhar causa dependência

* texto originalmente publicado na edição 46 da revista abcDesign. Imagens de Jeremy Geddes.

Faltam quarenta minutos para Fulano sair da agência, onde ocupa aquele cargo para o qual tanto estudou e batalhou durante anos. Olha para o relógio, disfarça a ansiedade, concentra-se no jazz que só toca em seus ouvidos e responde aos três e-mails mais importantes do dia. É preciso cumprir o cronograma. Oito horas de sono, oito horas de trabalho, oito horas “livres” para descansar e enfrentar outro dia desafiador e gratificante de labor. Mas como o prazo apertou, Fulano ainda precisa falar com Beltrano antes de voltar para casa.

Beltrano orgulha-se de não ter emprego fixo, esta labuta compassada e tediosa de Fulano. Seu chefe é seu smartphone, que o mantém sempre à disposição para quem precisa de alto rendimento em curto prazo. Ao invés de bens materiais, prefere manter e ampliar um “capital humano” de bons contatos. Mas como nem sempre a maré está alta, Beltrano também vende palestras e workshops sobre por que trabalhar não deveria ser entediante, e como estamos alienados por uma sociedade doentia baseada na culpa e na lógica da dívida/crédito. Leia mais…»

Debate FdD: design, uma experiência imediata ou mediada?

Após refletirmos sobre o capacete dos kamikazes e o significado do ato de chorar, chegamos ao terceiro post-coletivo com uma questão levantada pelo Beccari. Confira abaixo a pergunta proposta e as respostas, começando com as de nossos colaboradores fixos (Bolívar Escobar, Eduardo Souza e Thiago Dantas), seguidas das de Marcio Rocha Pereira e de Marcos Beccari.

Quando um rato tem acesso a uma alavanca que manda impulsos elétricos a um eletrodo implantado em seu cérebro, ele vai pressionar a alavanca repetidamente até cair de exaustão, abstendo-se de comida e sexo. Ou seja, o rato literalmente fode com seu próprio cérebro. Eu queria ter inventado isso, mas trata-se de um experimento bastante conhecido no campo da neurologia e que geralmente serve para explicar o princípio de ação das drogas nos humanos: substâncias que promovem a estimulação direta de certos pontos de prazer em nosso cérebro. A questão é: como podemos (se é que podemos) relacionar tal experimento com o design, seja como projeto ou como objeto de consumo? De preferência em apenas um parágrafo. Leia mais…»