Posts taggeados com ‘Vilém Flusser’

Refrações #002 – As dimensões e o mundo codificado de Vilém Flusser

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Prefiro Baudrillard #13 – Vampirotheutis Infernalis


Who da fuck is Terry Gillian? Fiodóro mostrando mais uma vez que a decepção mediante à humanidade permanece ali só esperando o momento certo para revigorar. É o milagre da vida irmãos, esse tal de Bóson de Higgs, uma linha tênue entre já é e já era. Peguem seus cachimbos proteinizados com whey e digam hello darkness my old friend. Zoeira mas fica aí a reflexão galere, abraços e fiquem com deus [em ritmo de funk evangélico]. #freeBeccari Leia mais…»

A superfície e sua vertigem

Resenha de “O universo das imagens técnicas: elogio da superficialidade” de Vilém Flusser (São Paulo: Annablume, 2008), originalmente publicada na revista Leaf #4.

O que mais me instiga em Flusser é a geralmente enganadora simplicidade com que ele tratava das pautas mais recentes da filosofia da imagem. Um ponto de partida poderia ser: nossa experiência de “realidade” é sempre mediada por nossa própria intenção de in-formar – dar forma e significado a – aquilo que nos aparece. Nesta mediação, a imagem seria uma primeira superfície por onde se integram nossas ideias ao mundo percebido. Mas como a imagem não é suficiente para traduzir nossas ideias em “conceitos”, o homem teria criado o texto como forma de codificar as imagens (que antes codificam o mundo). Leia mais…»

Reflexões para os 5 dias úteis da semana

raios1. Querida, inverti a mecânica

A palavra “mecânica” deriva do grego “méchos”, expressão que era usada para designar coisas que “enganavam”  a natureza: como a alavanca, por exemplo, que tornava possível ao homem erguer pesos antes impossíveis aproveitando-se do momento maior oferecido por um dos lados mais prolongados do artefato. Ou seja, tudo que era feito para enganar a mãe natureza era considerado “mecânico”, porque estávamos ampliando nosso poder sobre esse universo arrumando formas de enganar e trapacear as leis e pedregulhos dele.

É engraçado pensar que, tanto tempo depois, o papel de ilusionista e iludido tenham sido invertidos. Enganar a natureza hoje nos parece tão normal e óbvio que, quando a previsão do tempo erra, é normal dizer que “essas malditas nuvens de chuva nos enganaram.” Os principais avanços científicos hoje se dedicam a encontrar formas cada vez mais precisas de evitar que esses enganos aconteçam. Permitir que a natureza engane nossas prórpias enganações é um tanto amedrontador. Leia mais…

Revendo a brasilidade do brasileiro

Iniciei no Design Simples uma série de posts para me ajudarem na escrita de meu TCC, mas creio que esse exato ponto vale ser colocado por aqui, principalmente em sua versão extendida, e por lá, posto uma versão resumida, remetendo para cá. E que tema é esse que trago para cá?

Meu TCC é sobre a possibilidade de uma brasilidade no design gráfico, em especial em sistemas de identidade. Assim, o primeiro e necessário momento para fundamentar qualquer proposição disso é que olhemos para o próprio brasileiro antes de olhar para sua produção no design gráfico. Ver se nesse ente abstrato que chamamos de brasileiro é possível encontrar uma padronagem que classifiquei outros 200 milhões de pessoas no mesmo guarda-chuva.

Chega a ser hilário continuar o texto a partir do que coloquei acima… Que 200 milhões de pessoas possam ter as mesmas características. No entanto, creio que devo prosseguir, mesmo que para invalidar qualquer proposição de brasilidade que se faz hoje, ou se fez na história.

Tarsila do Amaral

Renato Ortiz em seu livro Cultura Brasileira & Identidade Nacional traça uma panorâmica bastante interessante sobre justamente as diversas tentativas de teóricos ao longo da história que tentaram fundamentar a existência desse “ser brasileiro”.  Já em sua introdução aponta que “(…) toda identidade é uma construção simbólica (a meu ver necessária), o que elimina portanto as dúvidas sobre a veracidade ou falsidade” (pg.8) desse homem brasileiro universal. Acredito que ressaltar essa necessidade que ele aponta é importante por dois motivos: 1.pela inevitabilidade de sua existência; e 2.pela função integratória que aparentemente aponta. Inevitabilidade porque a vivência coletiva traz um afrouxamento das características unicamente individuais das pessoas, mesmo que esse afrouxamento seja colocado pelo contexto histórico ou mesmo legislativo daquele coletivo. Uma moral que coordena as ações desse grupo criam uma unidade construida nos mesmos que, mesmo nas ações masi básicas, se pode encontrar padrões de atuação neles. E coloco a importância da função integratória pelo simples motivo de que assumir uma identidade grupal faz parte da vivência humana. Mesmo que alguém opte pelo afastamento social é porque reconhece nesse grupo uma unidade que não lhe apetece, e assim se retira de seu convívio. O fato de que Ortiz nos traz logo de cara a necessidade simbólica disso (embora ele não vá em nenhum momento para o lado da semiótica, podemos lembrar que o símbolo em Peirce nasce do hábito e da convenção) nos dá um atalho para quebrar logo de cara qualquer tentativa de ver no homem brasileiro alguma coisa intrínsecamente dele que, mesmo isolado, o tornaria brasileiro. Não existe. Assim, o primeiro ponto que podemos tirar aqui é que o brasileiro se constrói através da sua vivência de brasileiro. Leia mais…

Filosofia do Design, parte XXXII – o Design da Programação

* texto originalmente publicado no Design Simples.

Google before you tweet is the new think before you speak. Dizem que estamos na era da informação. Mas a informação sempre existiu: etimologicamente ela significa a forma no interior das coisas. É como se a informação fosse o software e a coisa fosse o hardware. O que acontece é que atualmente não há mais sentido em se ter as coisas, apenas em conhecê-las e experimentá-las. Mais do que isso, em compartilhar informações. A sociedade dedica-se cada dia mais à produção de informações, de serviços, de gestão e de programação. E o designer, a princípio, se dedica à produção de coisas.

Na verdade, desde sempre o ser humano modifica as coisas que o rodeiam. E desde sempre produz informação. Por este motivo, entendemos a história da humanidade como o processo através do qual o homem transforma a natureza em cultura. A ideia de progresso, no entanto, se torna relativa quando percebemos o seguinte círculo vicioso: as coisas produzidas pelo homem, ditas artificiais, regressam à natureza na forma de detritos. Por isso a produção de informação está tão na moda, isto é, a cultura não-material. Trata-se daquilo que Flusser (2010) chama de não-coisas. “E estas não-coisas são simultaneamente efêmeras e eternas” (op. cit., p. 103). Seguindo este raciocínio, nossas mãos tornam-se supérfluas (não podemos pegar uma não-coisa), ao passo que as pontas dos dedos se tornam nosso instrumento de decisão. Leia mais…»

Filosofia do Design, parte XXVII – Decodificando Flusser

* texto originalmente publicado no Design Simples.

Embora eu já tenha mencionado Flusser em alguns de meus posts, hoje farei um ensaio “introdutório” ao pensamento deste filósofo tcheco-brasileiro para compensar minha gafe (graças à generosa edição do @mizanzuk) no primeiro programa do AntiCast. Nascido e falecido em Praga, Vilém Flusser (1920-1991) viveu entre 1940 e 1972 no Brasil, onde realizou boa parte de um amplo trabalho filosófico que encara a imagem e o artefato como princípios básicos da existência humana. Diferentemente de outros pensadores de mídias (como Barthes, McLuhan, Baudrillard, etc.), Flusser ultrapassa muitas limitações metodológicas a favor de uma reflexão aberta do pensamento humano (no sentido mais amplo que isso possa ter).

Design e comunicação são, para ele, desdobramentos interdependentes de um mesmo fenômeno, a saber, o processo de codificação da experiência. Significa que projetar é in-formar, isto é, dar forma à matéria seguindo uma determinada intenção. Logo, o produto de design é ao mesmo tempo modelo e informação: ao transformar as relações entre o usuário e seu entorno, atribui uma função e um significado ao mundo. Embora isso pareça simples, o paradoxo do Design se revela em sua ambiguidade de ser simultaneamente uma atividade natural e artificial. Se por um lado configura uma habilidade imanente ao homem, por outro, compõe um universo regido por uma semântica e uma dinâmica próprias. Leia mais…»

Filosofia do Design, parte XXIII – Insustentável Sustentabilidade

* texto originalmente publicado no Design Simples.

Quando penso em Design de Produto, gosto de refletir sobre os guarda-chuvas. Para Flusser (2010), trata-se de objetos estúpidos (o que acaba sendo um infortúnio aos curitibanos): recusam-se a funcionar quando mais precisamos deles (quando há vento), são difíceis de transportar, dificultam o tráfego de pessoas na calçada e, não obstante, podem furar os olhos de pessoas distraídas. Além disso, não houve nenhum progresso significativo no design do guarda-chuva desde a antiguidade egípcia.

Flusser nos ensina que Gegenstand (objeto em alemão) significa algo que está contra, um estorvo ou obstáculo que foi lançado em nosso caminho (em latim obiectum, em grego probléma). O produto de Design configura então uma contradição: um obstáculo que serve para remover obstáculos. Depois que a chuva cessa, por exemplo, meu guarda-chuva se torna um grande estorvo para mim e para os outros. Aliás, um duplo estorvo: ele se torna problemático na medida em que há a necessidade de usá-lo. Na tentativa de sair deste círculo vicioso, o designer elabora um novo projeto, algo inovador, lançando um obstáculo diferente no caminho das pessoas. Mas como estorvar as pessoas o mínimo possível? Leia mais…»

Filosofia do Design, parte XVI – Por uma consciência moral do Designer

* texto originalmente publicado no Design Simples.

Notei que meus textos que exploram a ética/moral acabam gerando mais discussão, embora seja difícil dizer se isso é um bom ou mau sinal. Acho pertinente, pois, esclarecer melhor o meu ponto de vista particular sobre este assunto, ainda que seja necessário um texto mais extenso que o habitual. Geralmente, quando eu falo de Flusser, muitos criticam sua aparente falta de método científico/filosófico e o fato dele questionar muito e responder pouco, deixando muita coisa no ar e não chegando a lugar algum. Em primeiro lugar, acho que os postulados de Flusser podem ser provocativos, mas não são ingênuos.

Quando eu leio Flusser, parece que ele está confiando em minha inteligência, não a subestimando com fórmulas e receitas de bolo. Do mesmo modo, penso que o designer não pode subestimar a inteligência do usuário (o que acontece muito na abordagem do Design voltado ao Usuário), mas também não pode ser ingênuo. Trata-se daquilo que Mario Sergio Cortella (2008) chama de Autonomia Relativa, que não é a salvadora do mundo e nem imobilizada ou resignada ao ceticismo puro. Leia mais…»

Filosofia do Design, parte XIII – Design, Funcionalidade e Antiética

* texto originalmente publicado no Design Simples.

O escritor alemão Goethe aconselhava o homem a ser nobregenerosobom. O filósofo Vilém Flusser, aproveitando-se de tal prerrogativa, reformula essa questão ao Design e, ao mesmo tempo, a coloca em cheque: “o designer deve ser nobregenerosobom” (FLUSSER, 2010, p. 23). Aproveitando o ensaio “A guerra e o estado das coisas” de Flusser, falarei um pouco sobre ética e design neste post.

Supomos que temos que projetar uma faca de cozinha. Deve ser uma faca nobre na medida em que seja fácil de ser manuseada, não exigindo nenhum conhecimento prévio para isso – portanto, uma faca generosa também. Sobretudo, a faca deve ser boa para cortar alimentos de maneira eficaz e sem dificuldades. No entanto, se ela for boa demais, pode cortar também os dedos de quem a utiliza. Concluímos então que o Design deve ser nobregenerosobom, mas não demasiado bom. E quanto aos revólveres? São objetos nobres, podendo até configurar uma obra de arte contemporânea. São generosos também, qualquer criança analfabeta é capaz de utilizá-los. Por fim, são bons projetos de Design: não apenas matam com eficácia, como geralmente desencadeiam a reação de outros usuários que, por sua vez, matam aqueles que atiraram primeiro. Leia mais…»