Posts taggeados com ‘violência’

Profanações sem nome

* texto originalmente publicado na Revista Clichê.

O maior horror não provém daquilo que nos causa estranhamento, mas daquilo com o qual, estranhamente, nos identificamos.
– Alfred Hitchcock.

O termo em latim violentia, assim como o verbo violare (quebrar, romper), deriva do prefixo vis (força, vigor) e refere-se a uma aplicação de força, a uma passagem ao ato daquilo que potencialmente persiste num plano latente. O que me parece haver de mais instigante, indo direto ao ponto, numa reflexão sobre a violência é menos sua dimensão moral de (des)legitimação simbólico-social e mais sua dimensão ético-afetiva. Interessa-me perguntar de que maneira a violência oscila entre uma sensibilidade fundamental no registro intersubjetivo e uma banalidade anônima, discretamente apaziguada como terapia homeopática. Entre tirania ou barbárie de um lado e utopias redentoras do outro, irrompe um complexo embate de formas de vida concorrentes em seus ideais de realização. E da válvula de escape “amistosa” que proporcionam as redes sociais, bem como da canalização do tédio pela via do espetáculo esportivo, da teledramaturgia jornalística, da pusilanimidade dos games e da política teatral, instaura-se uma prerrogativa profana que se enuncia à medida que não é pronunciada: no que cessam as batalhas terrenas, irrompem as guerras imaginárias, que ganham mais força quanto mais são eufemizadas. Leia mais…»

A força maior da violência simbólica

* texto originalmente publicado na Revista Clichê, acrescentado de novas considerações.

“Os deuses ocultaram o que faz viver os homens.” – Hesíodo, Os trabalhos e os dias.

Ainda temos essa mania hegeliana de querer enxergar qualquer conjunto de fatos a partir de uma suposta causa e uma possível finalidade, costurando arbitrariamente os elementos constituintes. Como se esta recente revolta generalizada no Brasil fosse, por exemplo, uma questão de patriotismo ou de conspiração. Acontece que não é.

Não há um conjunto organizado passível de ser analisado em torno de agentes e fatores centrais. Não há uma síntese, não há um líder, não há uma direção a ser seguida. Qualquer coisa como o “hino nacional” ou um cartaz improvisado serve apenas de pretexto para algo muito mais forte e sobre o qual qualquer tentativa de explicação dissolve-se, diante dessa mesma força, em um balbucio inaudível e contraditório. Leia mais…»

Sobre o assassinato na escola de Realengo

[caso o título não esteja explícito o suficiente, saiba que este ensaio não tem nada a ver com Design. Opinião pessoal, você não precisa ler, etc...]

“Rapaz esquizofrênico invade escola do Realengo…” (vocês já sabem do resto). Que absurdo, não? Tanto que até nossa presidenta, ex-guerrilheira, fez questão de chorar. Tiroteio, violência, morte… isso agora é novidade no Rio de Janeiro? Acontece que foram crianças inocentes, numa escola. Não estamos falando das centenas de idosos doentes que morrem diariamente nas filas de hospitais públicos, nem dos 7.254 prisioneiros que foram condenados à morte nos Estados Unidos… estamos falando de crianças. Inocentes. Que estavam na escola. Um minuto de silêncio, por favor.

Isso nos faz esquecer que, recentemente, em São Paulo, uma moça jovem e rica planejou, com seu namorado, o assassinato de seus pais. Ok, foram 2 adultos (e não 12 crianças) que morreram nessa história. Do mesmo modo, ninguém mais se lembra daquele casal que jogou a filha pela janela, nem daquele rapaz que matou outro rapaz na livraria com um taco de beisebol, nem daquele adolescente que atirou em todo mundo no cinema, nem daquele goleiro que mandou matarem sua ex-namorada… Leia mais…»