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O que há para ser dito e o que há para se ver

Tu não vês senão a ordem e a organização desta pequena cova onde estás alojado [...].
Montaigne, Ensaios, II, 12.

O que há para ser dito não necessita ser dito. Se dizemos alguma coisa, é para ouvir alguma “voz” em tudo o que se diz. Dizer é um meio de fazer o mundo falar, ainda que este, indiferente, permaneça em silêncio. Nenhuma palavra que já não tenha sido dita. Mas só vivemos enquanto somos capazes de dizê-lo, como se o que vemos não pudesse comportar a ousadia de não ser dito.

Tudo o que vemos não é imediatamente visível, mas também não está oculto. Enquanto os enunciados são feitos de palavras, o que vemos é antes de tudo luz e sombra. Qual é a relação entre o que vemos e o que falamos? Podemos acreditar que falamos do que vemos, que vemos aquilo de que falamos e que os dois assim se encadeiam, quando na verdade o que é visível só pode ser visto, e o que é enunciável só pode ser dito. Leia mais…»

O Óbvio é o Reflexo do Invisível

Minha intenção é só dizer coisas óbvias. Sempre a evidência mais banal. Porque o significado mais profundo – aliás, o único significado possível às coisas, reside justamente na obviedade. Mesmo isso é óbvio e fácil de argumentar – quando um filósofo ou cientista passa anos investigando um problema, e de repente o descobre, bate com a mão na testa e diz “mas é óbvio! Como é que eu não tinha visto isso antes, estava na minha frente” (lembrem-se do famoso “Eureka” de Arquimedes). Não tinha visto porque estava diante do seu nariz: e é justamente aí o único lugar que nós não podemos ver.

Sofremos, enquanto espécie, uma triste contingência: o olho humano é cego. O aparelho visual, enquanto sistema, pode muito bem funcionar perfeitamente – se o cérebro não fizer a devida correspondência de decodificação das sensações luminosas recebidas pela retina, tudo passa em branco. Ou em preto: não enxergamos nada. O caso clássico é a cegueira psicossomática (abordada de maneira genial em Dirigindo no Escuro [2001], de Woody Allen). Seu olho funciona, mas você não enxerga nada, porque há um bloqueio inconsciente; um caso particular e não raro de histeria. Leia mais…