Todo mundo sabe o que ninguém quer mais saber

* Imagens de Adolfo Bimer ilustram o post.

Crianças compreendem diferentes tipos de coisas através dos mesmos filtros. É assim que elas funcionam: uma criança encontra um coelho pela primeira vez e pensa como esse gato é esquisito. O que também funciona para atribuir um papel a cada pessoa desconhecida: o coleguinha engraçado, a bruxa má, a princesa frágil, o príncipe encantado e mais um apanhado de categorias que, sabemos, podem continuar funcionando durante muito tempo.

Só que uma mesma criança pode se comportar de muitas formas diferentes, pode mudar de opinião o tempo inteiro, pode passar do choro ao riso num instante e sem o menor constrangimento. Ou seja, não é necessário agir de maneira coerente, embora haja certa coerência nos papéis atribuídos aos outros. E esses papéis, ainda que sejam fixados como uma referência, funcionam apenas por conveniência: se o mundo se mostra por vezes inconveniente, pode-se adotar uma explicação que o faça parecer mais conveniente.

Não por acaso uma das estratégias mais didáticas para ensinar crianças (mas não só) reside no recurso do “faz-de-conta”. Por exemplo: vamos fazer-de-conta que um monstro terrível assume o papel de chefão do mundo, mas depois surge um herói benevolente para derrotá-lo. Após a derrota, no entanto, o comportamento do monstro permanece atuante, mesmo sem o monstro. As pessoas se contaminaram com a maldade do monstro! Inclusive o herói, que então se revela como sendo uma farsa. Fim da história.

É meio estranho, mas as crianças costumam se preocupar bastante com isso: por que terminou assim? O que acontece depois? Quem será o herói de verdade? Pois bem, a reação pode mudar se acrescentarmos que, na verdade, era o monstro que queria fazer o Bem e o herói que queria fazer o Mal. Além disso, o monstro só foi vencido com o apoio das pessoas, que pensavam equivocadamente estar fazendo justiça. Quer dizer, o que se aceita com facilidade é sempre a tensão entre lados opostos, desde que um se sobreponha ao outro. Mas a coisa complica quando esse conflito começa a ficar redundante: de um lado, a luta contra o mal; de outro, a luta a favor do bem.

Ora, o que há para ser decidido, ou mesmo discutido, se o que está em jogo é tão somente um lado? E em que medida esse lado abstrato pode de fato interferir na ordem do jogo? Os heróis sempre dizem que “o tempo vai mostrar que quem hoje está contra nós estava do lado errado da história”. Como se a história pudesse legitimar o que hoje pode ser pensado e o que não pode. Como se houvesse um lado certo e um errado fora do faz-de-conta.

Em vez de “qual lado?”, então, o que me parece ser mais relevante é uma questão mais simples: por que podemos preferir azul em vez de amarelo? Podemos preferir porque são duas cores diferentes. Mas parece que o número “dois” ignora essa diferença, como se as duas cores fossem apenas duas grandezas de igual medida. Não são. As cores são sempre relativas, transitórias, casuais. Não são números.

E do modo como eu vejo, o mundo é feito de cores, não de números. Não existem oposições rigorosamente claras, há apenas intensidades em constante deslocamento, temperaturas que flutuam e penetram-se umas nas outras. Mesmo as cores que vemos não se deixam fixar senão de maneira muito nebulosa, muito confusa, já que não passam de uma impressão vaga, imediata e sempre última: a partir de que momento um azul se tornou amarelo?

Com isso quero sublinhar o óbvio, aquilo que todo mundo sabe e ninguém quer mais saber. Que em vez de “dois lados”, o que há são duas maneiras possíveis de interpretar o mundo: (1) admitindo que somente uma interpretação é válida, e mais nenhuma o é, ou (2) admitindo que todas são válidas, uma vez que não há como comparar “cores”, embora seja possível preferir uma à outra.

A primeira maneira tende a funcionar muito bem para identificar e resolver problemas iminentes – como um grupo de crianças que enxerga maldade nos coleguinhas mais travessos. Mas às vezes pode não funcionar. E nesse caso será impossível perceber que não está funcionando, porque um critério de verificação unilateral não consegue verificar a si mesmo. Decorre daí que um poder falido ainda acredita estar de pé apenas por força do hábito. E que todos continuem a gritar cada vez mais alto apenas para não mais ouvir o outro e, portanto, para não mais precisar reconhecer a existência alheia.

O que aí se ignora é o fato de que, por mais que as coisas possam piorar, o mundo vai continuar colorido, isto é, embaralhando matizes quentes e frios. E uma vez que todas as cores e interpretações possíveis sejam de antemão admitidas, o que importa deixa de ser uma questão de posicionamento ou de distinção entre dois lados. O que importa é a tarefa particular de extrair e recombinar novas sensações cromáticas a partir das paletas disponíveis.

É como a arte de cultivar uma planta: atenta-se às metamorfoses, à estranha gravidade que ali se arranja, para que assim se produza uma temperatura adequada. A existência da planta é tão provisória quanto a nossa, cada qual circunscrita a um intervalo singular. O que nos leva a uma última questão: qual é o maior número que existe? Eu penso que é o número um: este mundo é um só, a vida é uma só. Cada um de nós é um. Mas não só.

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