O politicamente correto e o meritocrático: uma via de mão dupla

* Esculturas de Barry X Ball ilustram o post.

A psiquiatria e os manuais de autoajuda contemporâneos atestam-nos que diversos transtornos psíquicos, como a depressão e a fobia social, estão associados sobremaneira à baixa autoestima. Logo, “autoestima” é o nome daquilo que todos deveriam ter, o orgulho de “ser o que se é”, de modo que a falta disso torna-se alvo de intensa preocupação social. Advém daí a sensibilidade que leva muitas celebridades a vir a público dizer que, antes de se tornarem autoconfiantes e admiradas por todos, tiveram que resistir e superar as mais diversas formas de repreensão da autoestima. Tais relatos tornam-se, então, um modo de ajudar a todos que sofrem em silêncio.

Não pretendo discorrer aqui sobre a autoestima, mas sobre o campo discursivo que a torna um bem precioso. Por “campo discursivo” eu me refiro à base valorativa que, em termos foucaultianos, estabelece os limites do que é possível pensar e dizer. O pressuposto é o de que tudo o que se diz e o que se pensa conjuga-se no interior de um conjunto de coordenadas acerca da verdade, da normalidade, da civilidade e do moralmente aceito. Interessa-me, sob esse prisma, mostrar a distância relativa entre dois discursos que se posicionam, a princípio, de maneira antagônica: o meritocrático e o politicamente correto. Retomemos antes a questão da autoestima.

A falta de autoestima, como se sabe, pode estar associada a experiências dolorosas do passado, como a prática do bullying. E quando as celebridades relatam terem sido vítimas de bullying, conforme analisa o filósofo foucaultiano Paulo Gibaldi Vaz (neste artigo), o que se destaca é o enunciado exemplar da “superação”. Ou seja, do mesmo modo que a falta de autoestima não é algo incomum, a possibilidade de resgatá-la estaria ao alcance de todos: basta não ter vergonha de ser quem você é, não se importar com o que os outros pensam etc.

É como se essa simples tomada de consciência resumisse a distância entre a celebridade autoconfiante e o indivíduo depressivo. A questão que me interessa é: quais os discursos aí em jogo? De um lado, a sensibilidade de que é preciso conscientizar a si e aos outros acerca dos inúmeros preconceitos que nos impedem de “ser o que somos”; de outro, a noção de autoestima como um norte não apenas daquilo que “devemos ser”, mas principalmente daquilo que merecemos ser (“merecer” no sentido moral, isto é, atrelado a um senso de “justiça”). Em suma, nós merecemos ser felizes e precisamos enfrentar os obstáculos que impedem a nós e aos outros de sê-lo.

Só que, se você não se esforça para isso ou é indiferente para com quem se esforça, é porque você não possui muitas dificuldades para conquistar uma autoestima que outras tantas pessoas merecem ter, mas que enfrentam muito mais dificuldade para tê-la. Por desconsiderar as dificuldades alheias, você é socialmente irresponsável, além de não ter feito “por merecer” (de novo, no sentido moral) a autoestima de que usufrui. Sendo assim, embora todo mundo mereça ser feliz e ter autoestima, talvez alguns mereçam mais: aqueles que, tendo ou não grandes dificuldades, estão ao menos conscientes das dificuldades dos outros. Dito de outro modo, a consciência social é um novo mérito, isto é, sinal de merecimento (ao menos reconhecido moralmente; reiterando que em nenhum momento eu me referi a questões financeiras).

Pois bem, de acordo com o filósofo Mario Perniola, ao longo dos últimos anos ganharam força dois discursos que, embora opostos em muitos sentidos, mantêm certa concepção estoica da vida como uma “luta não violenta” [1]. O primeiro discurso é conhecido com os nomes de “politicamente correto”, “multiculturalismo”, “SJW” (social justice warrior), e se propõe a lutar contra a marginalização e a discriminação das minorias sociais. Trata-se de uma sensibilidade que procura, por exemplo, eliminar da linguagem corrente termos e expressões que ofendem pessoas tradicionalmente discriminadas como inferiores, anormais, incapazes. O segundo discurso, por sua vez, pode ser definido simplesmente como “meritocrático” e representa um comportamento largamente difundido nas sociedades desenvolvidas: trata-se da justiça neoliberal de medir as penas e recompensas pela métrica universal do esforço próprio.

Antes de esclarecer o aspecto de “luta não violenta”, considero pertinente traçar, ainda que de modo esquemático, um pequeno background histórico. Antes de os sete pecados capitais terem sido catalogados pelo papa Gregório I, Agostinho já elegia a superbia (soberba, orgulho) como a mãe de todos os vícios [2]. Deriva daí a antropologia cristã medieval, segundo a qual o homem, em sua posição de pecador, desempenha o papel do animal doente que só pode curar-se por meio da humildade própria à fé. Em contrapartida, e dando um salto histórico, veremos que os pensadores que fundamentaram as noções modernas de sujeito, natureza e contrato social preocupavam-se com o ímpeto humano por reconhecimento social.

Um dos fatores importantes nessa mudança valorativa consiste na imagem do homem empreendedor, própria da ascensão burguesa, que substituiu a roupagem cristã da humildade pela demonstração exemplar de seus “méritos”: aquilo que teoricamente [3] todo e qualquer indivíduo poderia (e deveria) conquistar por conta própria.

É claro que, a princípio, essa valorização dos méritos opõe-se frontalmente à humildade cristã. Porém, tanto a renúncia ao pecado quanto a lei do “esforço próprio” foram cultivadas com vistas a uma retribuição a ser resgatada – bem como sua contraparte, a condenação no juízo final ou na miséria social. A aspiração ao lucro, não obstante, só pôde ser difundida por meio de um novo sentido de “humildade”, com referência ao fato de o empreendedor estar condenado à falta de nobreza de que goza a aristocracia [4]. Nesse sentido, dentre outros, a moral das luzes representa menos uma ruptura do que uma continuidade em relação à moral cristã:

Sob o nome de “natureza”, depois de “liberdade”, de “direitos fundamentais” – mais tarde, com Hegel, de “espírito absoluto” – renascem em pleno e novo vigor um certo número de opções metafísicas, às quais o cristianismo, enfraquecido, não prestava mais uma sustentação eficaz. [...] Montesquieu, Voltaire, Diderot, Rousseau apareceriam assim como os principais restauradores do sentimento religioso na Europa, contra o que já era no século XVIII a “agonia” do cristianismo. – Clément Rosset, Lógica do pior. Rio de Janeiro: Espaço e Tempo, 1989, p. 180.

Com isso em mente, retomemos aqueles dois discursos contemporâneos. O politicamente correto e o meritocrático constituem, segundo Perniola [5], duas formas paradoxais de militância: ambos são militia sine malitia, lutas que pretendem subtrair-se à identificação entre o combater e a vontade de lesar o inimigo a todo custo. Enquanto o pensamento clássico da guerra [6] considera os adversários de maneira igualmente indiferente, o pensamento politicamente correto e o meritocrático recusam essa indiferença para com os adversários. O politicamente correto se baseia na reivindicação de sua condição de vítima: sua fraqueza não é pensada como algo que deve ser transformado em força ofensiva, mas como conscientização. O meritocrático funda-se no caráter “exemplar” de sua condição de vencedor: sua vitória não é arbitrária, mas teoricamente acessível a todos. Em ambos os casos, a tarefa é menos vencer o inimigo do que reivindicar reconhecimento (da injustiça ou dos méritos).

À primeira vista, é claro, o politicamente correto e o meritocrático parecem ser discursos opostos: o primeiro quer provocar no adversário um sentimento de culpa que o enfraqueça; o segundo quer forçar o adversário a um sentimento de admiração. O primeiro parece nascer da consciência de uma desvantagem injusta, imerecida; o segundo parece surgir com o desejo de conquistar uma vantagem acessível a todos. O primeiro quer abolir o mal, o segundo quer difundir o bem.

Talvez a distância entre eles seja menor do que possa parecer num primeiro momento: analogamente à passagem, como vimos, da moral cristã à iluminista, esse tipo de confronto ideológico mantém-se como tal no seio de um mesmo campo discursivo polarizado. De um lado, condutas reativas, excessivas e intolerantes são replicadas de modo a incrustar o acirramento das convivências. De outro, os “bons gostos” políticos, culturais e de entretenimento não escapam da influência de uma hipersensibilidade para com os conflitos, as minorias, as diferenças. Entre os dois lados, porém, turvam-se as fronteiras: todos querem obter, senão a aprovação social de ser o que se é, um acesso imediato a formas e fórmulas (como a receita das celebridades) para superar o fato de não ser o que se deseja ser – a baixa autoestima.

O “normal” é reivindicar pelo direito de poder ser/fazer/pensar o que se deseja, no intuito de garantir a autoestima de si e dos outros. O “anormal”, por sua vez, é impreciso. Ele reside não na penumbra, tampouco em um lugar inconfundível, mas em um espaço arbitrário e abrangente: qualquer um é inimigo em potencial. É preciso, portanto, manter-se em vigilância. Todos podem (e devem) ser igualmente “autênticos”, desde que a uma distância segura do preconceituoso, que é indefinidamente todo aquele que pisa onde não deve e ameaça nossa autoestima.

Se “tudo é permitido”, pois, não significa que tudo está perdoado. O respeito, embora ao alcance de todos, não vem de graça; é preciso fazer por merecê-lo. Foi assim que os burgueses do século XVIII puderam conceder aos cidadãos todas as liberdades, “exceto aquela de atentar contra a liberdade”; e foi assim, do mesmo modo, que os revolucionários de 1968 puderam defender que “é proibido proibir”. A tolerância deve limitar-se ao que é tolerável. Nesse campo discursivo, em suma, onde o politicamente correto e o meritocrático se opõem e se complementam, a distância entre o normal e o anormal tornou-se uma via de mão dupla.

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Notas:
[1] Os discursos em questão foram originalmente identificados pelo autor como “politically correctness” e “neofaustismo”. Cf. PERNIOLA, M. Desgostos: novas tendências estéticas. Florianópolis: Editora da UFSC, 2010, p. 35-49.
[2] Cf. VARGAS, W. J. Soberba e humildade em Santo Agostinho. São Paulo: Edições Loyola, 2014.
[3] Segundo Foucault, os liberais do século XVIII haviam encontrado no “mercado” o princípio regulador da ação governamental, colocando o Estado sob sua tutela. Tal princípio funciona na medida em que se supõe que seus mecanismos são, de alguma maneira, naturais e têm suas próprias leis. Cf. FOUCAULT, M. Nascimento da biopolítica. São Paulo: Martins Fontes, 2008.
[4] Segundo Colin Campbell, antes da consolidação de uma ética protestante na identidade burguesa, havia em curso um “aperfeiçoamento moral das emoções” como compensação da doutrina calvinista da predestinação. O estudo de Campbell se detém na evolução dessa forma de ascese, por onde o “caráter” e os “bons sentimentos” tornaram-se um índice de salvação mais confiável do que a humildade cristã. Cf. CAMPBELL, C. A ética romântica e o espírito do consumismo moderno. Rio de Janeiro: Rocco, 2001, p. 179-188
[5] PERNIOLA, op. cit., p. 36.
[6] “Sabeis tão bem quanto nós que, no mundo dos homens, os argumentos de direito só têm peso na medida em que os adversários em confronto dispõem de meios de coerção equivalentes e que, se não for esse o caso, os mais fortes tiram todo o partido possível de seu poderio, ao passo que aos mais fracos só cabe se inclinar.” TUCÍDIDES. História da Guerra do Peloponeso. São Paulo: Imprensa Oficial do Estado de São Paulo, 2001, livro V, § 85.

6 respostas

  1. Raphael Schmitz disse:

    Belo texto, Becari. É difícil o exercício e elevar à neutralidade a apresentação de ideias aparentemente antagônicas. Para mim justamente quando tentas separar os dois conceitos, no inciso que precede o antepenúltimo paragrafo, é onde penso que surge mais um aspecto que poderia unificar os discursos, a idéia de que ambas as abordagens tentam despertar no adversário o sentimento de culpa: uma pela não adaptação, outra pela ausencia de necessidade de adaptação. Certamente nada é tão simples assim e, na complexidade das questões sociológicas, que esta via de mão dupla nos sirva para a prática do discernimento um pouco mais acertado entre o retoricamente justificável e o moralmente correto.

    • Obrigado pelo comentário Raphael. Concordo com sua observação, a ideia é essa mesma: são formas similares de culpabilização. Eu só procurei evitar entrar nisso porque o conceito de culpa, sobretudo no contexto pós-cristão, solicitaria uma longa explicação… Mas essa mesma questão me parece remeter à “produção de subjetividades”, em termos foucaultianos. Explico.

      Segundo Foucault, a subjetividade depende de duas figuras de identificação, uma positiva e outra negativa, em relação às quais o indivíduo localiza a si mesmo. O sujeito moderno, por exemplo, situava-se entre pastores laicos, de um lado, e os anormais, de outro. Por um processo de identificação negativa, o indivíduo temia ser anormal, ou seja, evitava desejar fazer aquilo que ele não deve fazer nem desejar. A identificação positiva com pastores laicos, por sua vez, ensinava-lhe a lutar a todo custo contra esses desejos.

      O que eu vejo na produção contemporânea de subjetividades é basicamente uma onipresença de pastores laicos. Tanto o politicamente correto quanto o meritocrático se legitimam de maneira pastoral: culpabilizando e ensinando a combater o mal. Esse “mal”, por sua vez, é muito difuso. A identificação negativa abrange qualquer coisa que possa ameaçar uma positividade acessível a todos. Consequência: a mínima discordância entre indivíduos é elevada ao grau máximo de negatividade.

  2. Interessante o texto, não sei se consegui entender bem a sua proposta, mas vamos la. Na coluna, você tenta colocar que tanto o politicamente correto, nisto se encaixa todos os movimentos sociais de minorias e suas lutas pela aceitação social, como o movimento meritocrático seriam uma forma de busca de autoestima? Em outras palavras, apesar do politicamente correto se opor ao discurso meritocrático ambos estariam unidos por serem formas de aceitação e ascensão social?

    No começo do seu texto, ao se referir sobre autoestima, me lembrei de um texto chamado toxicômanos de identidade da Suely rolnik. Onde ela trata a literatura de autoajuda como uma droga da contemporaneidade, junto com drogas de origem químicas e as terapias e abordagens behavioristas, que pregam uma eliminação de sintomas e fobias. Mostrando na minha interpretação que existe um imperativo categórico muito forte de: seja feliz, resolve seus problemas, você pode superar isso, Não fique triste, existem milhôes de remédios e técnicas para você nao ficar triste, por que esta? Me parece muito que esse tipo de literatura banalizou a autoestima, ao ponto de virar um clichê você buscar um sentido e um gosto num mundo de imperativos.

    Talvez ambos os discursos estejam dizendo ” me aceitem”, contudo, não consigo compara-los mesmo ambos tendo desta visão, o mesmo objetivo. Enquanto o discurso das minorias vem mudando o social, lutando fortemente contra o conservadorismo e tentando inverter, não só inverter mas talvez romper essa ótica senhor e escravo. O discurso meritocrático parece ter desde sua base teórica a prática pontes muito frágeis. Visto que qualquer defensor da meritocracia nao abra mão do direito a herança, como seria possível pratica-la ? Qualquer um que herde bens ou lucros de um familiar, assim como uma posição social e que não tenha trabalho nem utilizado de seu esforço próprio, não estaria utilizando a meritocracia. Pois não teria trabalhado em nada para aquilo. No campo mais pragmático a meritocracia se torna praticamente impraticável, visto as relações tanto simbólicas quanto imaginarias, que se pode ter sem ter de fato mérito para tal.

    A meritocracia é o discurso moderno que sucede o discurso aristocrata, por que eles são ricos? porque são nobres. Por que eles são ricos? porque trabalharam para isso. Tanto a meritocracia com o absolutismo etc, são discursos para justificar o direito do opressor de oprimir. Seja por que deus lhe concedeu esse privilégio ao nascimento ou por que ele trabalhou para conseguir isso.

    O problema talvez, esteja na relação dialética do senhor e do escravo, onde o discurso politicamente correto, que antes era o oprimido, ao tentar romper a relação senhor e escravo se vê na função de opressor, para só assim se validar como sujeito-subjetivo. Pois só tendo um sujeito opressor que oprima a opressão é que se pode fugir dessa relação. Seria isso que talvez o politicamente correto faz e que o seu texto queria dizer com os dois últimos parágrafos?

    • Victor Hugo, obrigado pelo comentário. Conforme eu tentei deixar claro no segundo parágrafo, o ponto de vista que eu adoto é estritamente foucaultiano. Tal perspectiva afasta-se da noção dialética de “senhor-escravo” (de dois lados que se enfrentam para, depois, anular essa relação), que é herdeira de uma tradição de pensamento sacramentada por Hegel e Marx e que atribuiu ao conflito um papel histórico essencial.

      O que aqui me interessa são os modos de legitimação discursiva daquilo que é dito como “verdadeiro”, e não discutir o que é a “verdade”. Então pouco me importa se o politicamente correto possui mais consistência teórica do que o meritocrático (como você parece afirmar em seu comentário). Minha premissa (ou minha “verdade”) consiste em dizer que há sempre um campo discursivo subjacente a todo pensamento ou enunciado, de modo que não há nenhuma verdade fora dessa rede valorativa.

  3. Tony disse:

    Ótimo texto Beccari,
    Sei que devo está racionalizando, de uma forma bem superficial, apenas as definições dos termos, mas…
    Se, negar a uma determinada “classe” uma liberdade ou “bem” merecido (ou seja, não reconhecer um mérito), baseado em algum preconceito, é ser politicamente incorreto. Não seria o “politicamente correto” então, sob esse aspecto, um pensamento meritocrático?

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